NOTAS…NEGATIVAS
Algumas situações e comportamentos ocorridos recentemente ou mesmo tiveram lugar em períodos menos recentes ou quase constantes no quotidiano dos portugueses, levam-me a tecer algumas considerações, como sempre com o único objectivo de tentar esclarecer e alertar os que, no turbilhão do dia a dia, frequentemente deixam passar em claro o que, na minha modesta opinião, mereceria uma outra atenção e profunda reflexão. Vejamos, então:
Assisti recentemente, atento mas quase que escandalizado, a uma entrevista, quase que um monólogo, numa das estações de TV , em que o conhecido -vai a todas – Padre Vítor Melícias, defendia, com grande entusiasmo e determinação – pelo menos assim o parecia - princípios que deveriam ser seguidos e procedimentos a adoptar pelos portugueses, numa tentativa, talvez, de os incentivar a seguir o seu exemplo, aproveitando todas as oportunidades para garantir uma reforma ao nível da que aufere, segundo publicitado na Comunicação Social: apenas, repito, apenas 7.450€/Mês, sim mês…A entidade em causa pertence à Ordem dos Franciscanos, os que fazem votos de pobreza, castidade e obediência, pelo que se verifica, na sua conduta, uma coerência total com os votos proferidos…Refiro-me, como é lógico, à pobreza – à vista de todos – e à obediência, ao poder do dinheiro e à atracção dos altos cargos. E é Franciscano; onde chegaria, se não o fosse! Mas há uma lacuna, penso eu, no percurso: muito embora fervoroso aficionado das touradas, penso que ainda não foi Presidente da Sociedade Protectora dos Animais. Mas sócio certamente que será…
A alegria que de nós, na sua grande maioria, se apodera nesta época festiva, foi, pelo menos no que me diz respeito, profundamente afectada pelas sucessivas notícias referenciando casos de enormes carências, quase sempre alimentares e de alojamento, chegando-se à vergonhosa, repito, vergonhosa situação de escolas se manterem abertas, fora dos períodos normais, exclusivamente para garantir refeições aos alunos que, de outro modo, iriam aumentar o número dos que todos os dias fome passam. E que dizer dos milhares de portugueses, que para mitigar a fome, recorrem diariamente a diversas instituições, muitas das quais já lutam com enormes dificuldades para cumprirem a sua extraordinária missão? E como classificar a situação de outros tantos milhares que apenas sobrevivem em vãos de escadas ou prédios devolutos, graças ao trabalho e dedicação de centenas, diria mesmo milhares, de seus semelhantes que, abdicando do seu justo repouso vão junto deles levar a sua ajuda?
O sofrimento e o desespero dos que necessitam de tais ajudas, só tem equivalência, na sua dimensão, com a generosidade e espírito de sacrifício dos que com eles se preocupam. Será isto a tão apregoadas justiça social? Será que os integrantes dos sucessivos governos – muito embora com responsabilidades graduadas – não terão problemas de consciência por terem permitido, ou pior, por terem contribuído para que as situações expostas sejam uma realidade, cada vez mais gritante? Será que cada um de nós e, portanto todos, não terá também um peso na consciência, por ter colaborado, directa ou indirectamente, na gestação de uma realidade que a todos envergonha? Será que, pelo nosso alheamento ou mesmo por escolhas pouco esclarecidas e eivadas de “partidarite”, não somos coniventes em outras situações em que a democracia não passa de letra morta, permitindo que um capitalismo por vezes quase selvagem, quando o não é de verdade, domine em absoluta a força do trabalho, esquecendo a componente, para mim obrigatória, social do capital?
Tantas e tantas interrogações que apenas poderá ter como resposta um sim; pelo menos que seja um sim que origine um sincero desejo de mudança. E pensar eu que os dois milhões de Euros que todos os dias se desperdiçam na saúde, permitiriam reduzir drasticamente o número de portugueses, lançados por compatriotas seus na miséria e na desgraça…E a minha revolta maior é ainda quando constato que procedimentos que me não coíbo de qualificar de criminosos – roubo do erário público e, assim, roubo da felicidade de muitos – ficam impunes, à semelhança de tantos outros roubos e crimes e dos gentilmente chamados “desvios”. Triste justiça, a nossa, controlada – não encontro outra justificação – pelo poder político e pelo poder dos grandes lobbies!
Depois disto que ninguém se admire que, como já tive ocasião de escrever, aumentem o número de portugueses que começas a duvidar que a democracia seja o menos mau de todos os sistemas políticos.
E, para terminar, uma nota de optimismo e, portanto, positiva: por que não nos inspiramos, no desígnio de inversão de comportamentos e situações, no extraordinário exemplo, de luta pela sobrevivência, enfrentando vagas alterosa e ventos da maior intensidade, que a todos foi dado pelos seis pescadores há semanas naufragados, com destaque para o seu mestre? Se assim for, também as vagas alterosas com que Portugal se defronta serão vencidas, sendo fundamental não esquecer que todos navegamos no mesmo barco e, portanto, todos seremos vítimas, em caso de naufrágio; todos não, que os oportunistas, os falsos profetas, os que da política apenas se serviram, já têm o futuro garantido, seja em Paris ou noutro qualquer refúgio…
Sei perfeitamente que este meu grito de revolta de modo algum terá o eco e a receptividade correspondente à força que lhe quero imprimir, mas pelo menos dele terei a recompensa de me garantir a entrada no Novo Ano com a consciência do dever cumprido: ser fiel a mim próprio e deitar cá para fora o que não quero que apenas a minha alma guarde. Que todos os portugueses possam entrar em 2012 com igual sentimento. Que 2012 nos traga a esperança de um Portugal mais justo, mais solidário e com menos desesperados…
Sem comentários:
Enviar um comentário