Uma sessão solene paradigmática...
Ouvi, incrédulo e mesmo que estupefacto, embora sem razões para tal, dado o que em anos anteriores se tem passado, não todas as intervenções na totalidade, mas algumas passagens, dos oradores na sessão de abertura do novo ano judicial, e não resisto a fazer algumas considerações. E a primeira e que me parece mais adequada é simples, muito simples: palavras, palavras e mais palavras e algumas promessas que correm o risco, como também vai sendo habitual, de se não concretizarem.
Na verdade, avisos e apelos que nunca surtem efeito, críticas a governos que directa ou indirectamente os sustentam nas cadeiras que há muito deviam ter abandonado, por ter terminado o prazo de validade ou por perda total de prestígio, até pelo excesso de visibilidade deliberadamente provocado, ou mesmo por ambas as razões, ataques a um sistema judicial para o desprestígio do qual deram um valioso contributo, por omissão ou mesmo intervenções activas, dando origem a que, em situações envolvendo grandes e poderosos, os arquivamentos se sucedam, a par de absolvições que a grande maioria dos cidadãos não compreende – e talvez até infelizmente compreenda – e seguramente não aceita, torna - se enfadonha e leva a pensar – pelo menos a mim leva – a que tudo, ou quase tudo, poderia ser simplificado com apenas a reprodução de uma cassete – e isto sem segundo sentido – ou melhor, para não ser eu também apelidado de fora de prazo ou obsoleto, de um CD, com gravações de intervenções de anos passados ou, mesmo que vazio, para se poupar e energia eléctrica, face à crise em que vivemos, como se a crise da justiça já não fosse suficiente. E assim até teríamos altas individualidades a dar um bom exemplo de poupança…
Mas há uma intervenção que merece, passe o elogio, uma referência especial: na verdade, quando da intervenção de quem posteriormente soube tratar-se do mui ilustre – o respeitinho é muito bonito e fica sempre bem, até porque politicamente correcto - Bastonário da Ordem , que por vezes mais parece desordem, dos advogados, fiquei admirado e mesmo perplexo ao concluir, talvez que um pouco precipitadamente, confesso, estar a usar da palavra um conhecido e qualificado deputado do Bloco de Esquerda, que me dispenso de identificar, tal a semelhança da natureza da intervenção. E muito embora o timbre de voz me fizesse surgir algumas dúvidas, a verdade é que a demagogia, o populismo e a natureza trauliteira do discurso me orientavam numa direcção que julgava correcta. Mas estava enganado, segundo constatei ao ouvir a identidade do orador. Mas outra dúvida de mim se apoderou: seria que a transmissão em causa, no caso específico em análise, dizia respeito a um discurso de pré campanha para a eleição presidencial? É verdade que ainda é muito cedo para tal, mas como decorre uma petição pública para a destituição do actual Presidente, a razão da minha dúvida…
Mas falta uma referência a promessas: ficaram – me no ouvido afirmações e as promessas, muito atraentes, interessantes e mesmo, na minha óptica, acertadas, da actual senhora ministra da justiça, por quem o actual senhor bastonário já referido nutre uma comovente admiração e indisfarçável estima – mas nada retiro, até prova em contrário, das dúvidas de concretização das mesmas. E isto porque, como diz o velho ditado, “gato escaldado até de água fria tem medo”…E os portugueses têm apanhado tantos escaldões de natureza política e não só! Face a tudo o exposto, parece que não deixa de ter alguma razão de ser, quando comparado com a realidade em que vivemos, a qualificação dada à sessão aqui analisada.
E, já me esquecia, o que seria uma falha indesculpável: no caso de ter havido, como é habitual em algumas cerimónias, corte de fita, espero que não tenha sido usada a célebre tesoura que serviu para dar umas valentes tesouradas, numas célebres escutas. É que não queria, por nada, que tal tesoura seja usada, tal o seu valor simbólico, em actos de menor importância…Apenas e somente em actos que fiquem para a história. Mesmo que por razões pouco recomendáveis