Um travesti chamado de democracia
Ausente há
muito, nem sequer do significado do nome muitos se lembram. É a democracia, isso
mesmo, palavra derivada da designação “demo-kratos”, ou seja, regime de governo
em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos
(povo) directa ou indirectamente.
Mas será
realmente isto que desde há muitos anos, e principalmente nos últimos, se tem
passado em Portugal? Que interferência tem o povo, verdadeiramente influente e
decisiva, na escolha dos seus representantes, para além de se limitar, de
quando em vez, em votar em partidos, e não em candidatos por si escolhidos,
partidos esses que escolhem a seu bel prazer, mas com a certeza de sobre eles
virem a exercer total controlo, personalidades que muitas vezes os eleitores
nem de nome sequer conhecem e que nada, ou muito pouco, têm a ver com os
círculos por onde são candidatos e que apenas resultam de interesses meramente
partidários? E que dizer das políticas praticadas, depois de alcançado o poder,
frequentemente contrárias às que levaram os eleitores, ingenuamente, a
acreditar na verdade das promessas feitas, normalmente a coberto de uma
comunicação social que apoia, por sistema, os que lhes parecem mais próximos do
poder, ou que quando os que não beneficiaram do seu apoio saem vencedores, rapidamente
mudam de rumo?
Como
classificar de democracia um sistema em que o poder político, em vez de cumprir
a honrosa missão de servir o povo, que deveria verdadeiramente representar,
defendendo os seus legítimos direitos, interesses e ambições, se sujeita ao
controlo por parte dos lobbies económicos, financeiros e não só, legislando a
seu favor, em prejuízo de uma maioria que traíram e frequentemente tendo em
vista benefícios futuros, uma vez abandonado, pelo menos aparentemente, o poder;
político, que não o que serviram durante o seu mandato?
Que dizer
quando o poder político, servindo os grandes interesses que o controla,
controla também o poder judicial, permitindo que aos grandes e poderosos tudo
seja permitido, sem qualquer tipo de penalização, quando um crime de reduzida
dimensão e muitas vezes praticado como único meio de subsistir por breves dias
ou mesmo horas, permitindo mitigar a fome originada por decisões que apenas
conduzem à defesa do capital, sem ética e sem o menor sentido social,
contribuindo para que o fosso ente ricos e poderosos e os pobres e fracos cada
dia mais se avolume?
É claro que,
de vez em quando, surgem algumas decisões apelidadas de justiça social, como
que um bodo aos pobres, mas que fundamentalmente apenas pretendem tentar fazer
esquecer a realidade em que os “beneficiados”se inserem e garantir os votos
indispensáveis para a manutenção no poder; e tal nunca é esquecido quando se aproximam
períodos eleitorais…
E as organizações
mais ou menos secretas, usando avental ou possuidoras de segredos de sacristia,
que, mesmo situadas em pólos opostos, abandonando por completo os princípios
que presidiram à sua constituição, usam o enorme poder e influência de que
usufruem para que os seus membros alcancem cargos, políticos e de outra forma
de poder, que de outro modo nunca conseguiriam obter? E, sabe-se agora, mais do
que nunca, ser isto uma realidade que a
todos, menos aos beneficiados, deve seriamente preocupar.
E no meio de
tudo isto, o povo, onde está o povo? Cada vez mais afastado do poder, povo que,
embora cada vez menos, felizmente, está convencido de o exercer através de
quem, por meios mais ou menos habilidosos e subtis, mas apelidados de
democráticos, o convenceu de livremente ter escolhido.
Por tudo o
exposto, e por muito mais que, infelizmente, poderia ser denunciado, será exagerado
qualificar de “travesti” o sistema político com que somos defrontados, e em que
só os beneficiados estão interessados em que prossiga, se possível utilizando
todos os meios para que o travesti nem de velho morra? Certamente que só assim
o considerarão os que do sistema tiram o máximo proveito e dele pretendem
continuar a retirar benefícios…
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