Um Prefácio e outras
coisas mais…
Muito embora reconhecendo o volume de opiniões e críticas
originadas pelo já célebre prefácio do atual Presidente da República, não posso
deixar de tecer algumas considerações, até por se tratar de uma personalidade
que durante anos apoiei -e humildemente confesso que em várias situações o não
deveria ter feito.
Na verdade, e sem colocar minimamente em causa as afirmações
e factos relatados no texto, uma conclusão de imediato me é permitido deduzir:
conforme por várias vezes opinei, ao tentar apresentar-se como alguém quase que
não político, e deixando mesmo adivinhar uma muito pouca simpatia pelos
partidos, e precisamente na sequência destes procedimentos, o Prof. Cavaco
Silva é talvez o mais político de todos os políticos…E o modo como inicialmente
utilizou o apoio do partido que o lançou na vida política, seguido de um cada
vez maior afastamento do mesmo, e do estiolar de muitos que o rodearam, que não
de algumas figuras que com ele tão intimamente colaboraram – alguns dos quais de
triste memória - a prática de políticas que então apresentou como as mais corretas
para o desenvolvimento do país, com destaque para a política do betão, a falta
de controlo dos fundos comunitários, a liquidação da agricultura e das pescas,
tudo isto em oposição plena ao que na atualidade defende e proclama, como
sempre tivessem sido estas as suas opções, são, penso, a prova provada da razão
que me parece assistir.
E passemos, então, a alguns pormenores do tão falado prefácio.
Sócrates é acusado de falta de lealdade e sugere mesmo ter
sido enganado; mas se tal sucedeu em relação ao país, qual o motivo da
admiração do Senhor Presidente? Mas alguém acredita ser o Senhor Presidente, um
político e mesmo um simples cidadão tão ingénuo que até foi apanhado de
surpresa com matéria relacionada com execuções orçamentais?
E só agora, depois de factos consumados e as opções a tomar
se resumirem, praticamente, a “a troika manda e o governo executa”, é que
denuncia factos que me parecem, salvo melhor opinião, de modo algum deverem ser objeto de publicitação, até
pelo ambiente que se gera e gerará relativamente ao atual e futuros primeiros
ministros? Francamente, e com a minha habitual frontalidade o afirmo, muito do
apresentado se me configura, acima de tudo, como auto elogios, laivos de
vingança política e tentativa de justificar o que considero injustificável: o ter
contribuído, fundamentalmente por omissão, para que o país se fosse arrastando
penosamente, para a calamidade com que hoje se debate. Bem avisou, bem alertou,
bem encaminhou os portugueses para o site da presidência e para o facebook, mas
intervenções diretas e verdadeiramente produtivas, onde as encontramos? Nem uma
mensagem à Assembleia da República e, como factos mais relevantes, lembro – me a
comunicação ao país sobre o estatuto dos Açores, contrariando toda uma
expectativa gerada, face à situação então vivida s e um facto político que
ficou conhecido como o “escutas a Belém”, situação aliás muito obscura e nunca
devidamente esclarecida; como aliás é próprio e habitual em políticos…E há um
pequeno pormenor que do prefácio não consta: o ter dado posse a um governo
minoritário, quando tudo garantia tratar-se de uma morte anunciada…Mas a agonia
do país foi prolongado por mais uns longos meses! É ainda feita referência ao
facto de não lhe ser possível demitir um primeiro- ministro; fica a explicação
para os que eventualmente ainda desconhecessem tal preceito constitucional, mas
outras soluções, com efeitos decorrentes equivalentes, não foram utilizadas… E,
com a embalagem, já me esquecia de lembrar que, de permeio, tiveram lugar
eleições presidenciais, a que o Sr. Prof. Cavaco Silva se candidatou e até, e
democraticamente, venceu. Mas isto é, na verdade, um ínfimo pormenor, e tão insignificante
que até do mesmo me ia esquecendo. E, se tal tivesse ocorrido, com toda a razão
me poderiam apelidar de político à portuguesa, onde a memória do que se diz e
fundamentalmente promete, tão frágil é. E foi tal o entusiasmo, e mesmo quase
que emoção, que me provocou a leitura e posterior análise do prefácio em causa,
que esgotei o espaço que a mim próprio impus; mas outros temas estão na forja…
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