quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


Subsídios para a História da Guerra do Ultramar-MOÇAMBIQUE

Integrei, durante alguns anos, dos quais cerca de quatro em Moçambique, com a especialidade de Analista de Informação das Transmissões, o Serviço de Reconhecimento das Transmissões do Exército Português, lamentavelmente extinto após o 25 de Abril, o qual prestou ao país, enquanto em vigor, serviços de extraordinário valor, praticamente desconhecidos da quase totalidade dos portugueses, civis e mesmo militares. Por razões que me abstenho de comentar, mas que não difíceis de adivinhar, após a data atrás referida a quase totalidade, ou mesmo totalidade dos documentos que se encontravam arquivados foram destruídos, ou, não me custa tal admitir, guardados com todo o cuidado…Felizmente que alguns caíram em boas mãos.
E não fosse um trabalho de extraordinária dedicação e investigação do meu Camarada de Curso e de Arma, Ten. Coronel Carvalho Lopes, a quem aqui presto aqui a minha sentida e sincera homenagem, tudo respeitante à história da denominada CHERET ficaria para sempre na mais obscura sombra ou mesmo no total esquecimento.
E foi precisamente a edição, a custas do autor, de uma publicação, com um número reduzido de exemplares, que me levou a dar a conhecer duas situações, uma das quais mantive praticamente em segredo, durante algumas décadas, muito embora já desobrigado de tal procedimento há muitos e muitos anos. E vem-me à memória o que presentemente se passa com as constantes “fugas de informação” e o que ainda há pouco sucedeu, e não sei se continuará a suceder, com os atuais Serviços Secretos de Informação…Sinais dos tempos que vivemos!
E passemos, então, aos dois factos que justificam o título deste artigo:                                                                                                                     
1-Relativamente à atividade do Serviço em Moçambique, são focados dois acontecimentos, um dos quais, a terem sido tomadas em consideração as informações obtidas, poderiam ter alterado profundamente o rumo da guerra; trata-se da informação sobre o local de realização do 1º Congresso da Frelimo no interior de Moçambique, informação que foi preterida por uma outra, alegadamente fornecida pela PIDE. Como foi garantido na altura (Julho de 68) a informação dada pelo Serviço estava correta. Simplesmente, a operação militar montada, teve por alvo um local onde nada se passava; montada nova operação, com base na informação que havia sido preterida, verificou-se a total correção da mesma, tendo sido ainda recolhida uma pasta com documentos particulares de Samora Machele e encontradas fogueiras ainda a arder…
E tão completa era a informação, que até o número de rolos de papel higiénico levados para o Congresso era conhecido…
Sucede que a informação foi obtida através do Destacamento de Informação das Transmissões que eu chefiava, montado com base num dispositivo, que encontrei e que procurei melhorar e adaptar à realidade que então se vivia; aliás a descoberta de que a FRELIMO dispunha de ligações TSF, foi feita pelas equipas por mim chefiadas...
Razões da opção tomada? A resposta apenas poderia ser dada por quem decidiu; e fico-me por aqui…
Sucede, e apenas refiro o facto para demonstração de que a frontalidade com que sempre atuo, já há muito me acompanha, que, durante esta comissão de serviço, me vi obrigado, para defesa da verdade e evitar a punição de um oficial meu subalterno, a chamar de “mentiroso”, cara a cara, a um oficial general; não fui punido disciplinarmente, mas, de outro modo, a fatura foi poucos meses depois cobrada…
2-No decorrer da leitura do livro, tive conhecimento de que foi a equipa que montara em Nampula, agora com outros elementos, que, em Setembro de 74,imediatamente a seguir ao acordo de Lusaka, celebrado a 7 do mesmo mês, e em que foi acordado um cessar fogo, que evitou, graças a um trabalho excecional, reconhecido pelo próprio Samora Machel, materializado em sucessivas tentativas, coroadas de êxito, de contacto com os comandos via TSF, da Frelimo, que o cessar fogo fosse interrompido pelas forças desta organização, numa decisão que surpreenderia as forças armadas portuguesas sedeadas em Moçambique.
Só agora o soube, mas orgulho-me de ter sido um serviço por mim reorganizado a ter evitado um recomeçar da guerra, em condições altamente desfavoráveis para as forças armadas portuguesas e população civil, que ficariam sujeitas a um verdadeiro massacre.
Porque a simples leitura do livro, que pretendo que, na altura própria, passe a ser guarda do meu filho mais velho, não permite, por falta de muita documentação, tomar conhecimento explícito, da minha intervenção, direta numa, indireta, noutra, nos factos citados, resolvi, pela primeira vez, dar conhecimento por este meio de dois acontecimentos que já fazem parte da história de Moçambique e das próprias forças armadas portuguesas. E não fosse a dedicação e interesse do Camarada e Amigo, já referenciado, estes acontecimentos, que considero do maior relevo, nunca seriam conhecidos, mesmo por uma grande maioria dos militares portugueses: os de então e os que se seguiram. Como, infelizmente, sucedeu a muitas outras situações, acontecimentos e comportamentos, envolvendo, fundamentalmente, Angola e Moçambique.
Como se constata, nem sempre a verdadeira história dos acontecimentos é conhecida.
E porque de tal se reveste da maior justiça, quero neste momento prestar pública homenagem aos oficiais, sargentos e praças que, pela sua extraordinária abnegação e dedicação ao serviço, tornaram possível tudo o que aqui registado fica Sem eles, nada, absolutamente nada, teria sido concretizado. E, no que me diz respeito, se algum mérito tive, e negá-lo seria uma falsa modéstia, foi saber tirar partido das qualidades dos homens que tive a honra de chefiar. E como, infelizmente, se torna impossível identificar todos os que tiveram intervenção mais direta em tudo a que é feita referência, desejo, na pessoa do então 1º cabo Silva, interveniente fundamental no êxito da manutenção do cessar fogo, prestar a mais sentida homenagem a todos cuja identidade desconheço! Um herói desconhecido, como tantos outros o foram!
Como seria importante, por tantos e diversos motivos, que a publicação em causa chegasse ao conhecimento do maior número possível dos portugueses! E muito mais de interesse seria se toda a documentação do Serviço extinto permanecesse intacta e acessível a quem a desejasse consultar. Mas, infelizmente, somos um país em que se destrói parte da sua própria história. E, por vezes, com objetivos bem definidos!

 Campos de Barros

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


Temos um Ministro Bombista?!
A leitura de um artigo, da autoria da jornalista Ângela Silva, publicado no Expresso de 22 de Dezembro de 2012,intitulado “Miguel Macedo trava bomba nas mãos de Aguar Branco”, chamou a minha atenção e a leitura do mesmo de imediato me fez trazer à memória o teor de um despacho, publicado no D.R.,2ª série-Nº 133-11de Julho de 2012,despacho esse que tem o nº 93448/2012 e que se refere à criação de uma Comissão para a Revisão do Conceito Estratégico da Defesa Nacional”, matéria que sempre me mereceu a melhor atenção e a que me já referi por diversas vezes. E mais interessado fiquei quando, constatei que, no artigo em causa, é feita referência à oposição do Ministro Miguel Macedo e se refere que no texto do documento elaborado, por um conjunto de personalidades, algumas das quais a seguir identificarei, se diz que “a sobrevivência de Portugal está em risco” e se faz referência a um “ataque brutal à classe política”.
E a leitura do artigo e do que vem publicado no D.R. veio dar origem a uma forte atração pela leitura do documento elaborado, até porque a existência de uma bomba, nas mãos de um ministro, e ainda por cima da Defesa Nacional, e por muita confiança que nele se deposite, é motivo de grande preocupação…
Outra situação que me causa perplexidade, é o facto de apenas ter lido, relativamente à matéria em causa, o artigo referenciado, apesar, e daí o reforço da minha perplexidade, de que tudo isto envolveu uma cerimónia de tomada de posse, com declaração e assinatura de compromisso de honra de cada um dos membros da Comissão, presidida pelo primeiro- ministro, e outra cerimónia de entrega do documento ao Governo, também presidida pelo primeiro-ministro…E a referida Comissão envolvia personalidades, civis e militares, de reconhecida capacidade e de várias áreas políticas e profissionais, algumas das quais passo a referir: Adriano Alves Moreira, António Vitorino, Francisco Pinto Balsemão, Eduardo Lourenço de Faria, Jaime Gama, José Loureiro dos Santos (General),Luís Amado, Nuno Vieira Matias (Almirante), num total de 25 elementos! Mas, contrariamente ao que é habitual, tanto quanto julgo saber, a comunicação social esteve ausente. Este facto, aliado ao de um assunto de interesse estratégico para Portugal, ter passado desapercebido e mantido como que em segredo, permite concluir não haver interesse - e não será difícil adivinhar por parte de quem- que o mesmo fosse conhecido; a não ser por parte, parece, da jornalista em causa, parecendo personificar uma controlada “fuga de informação”, sabe-se lá com que razão…Ou talvez se saiba mesmo, nem que apenas por simples dedução!
Face ao exposto, consideraria oportuno, até para que os cidadãos conheçam melhor o modo como se faz política em Portugal, que jornalistas houvesse que investigassem tudo o que sobre esta matéria averiguado possa ser, pois que de modo algum posso aceitar que um estudo, que durou alguns meses, e feito a pedido do atual Ministro da Defesa, e dizendo respeito, mais uma vez o repito, a matéria de transcendente interesse nacional, tenha o fim a que parece condenado! A não ser que já haja outra comissão, que não nomeada, como é lógico pelo Ministro da Defesa, a estudar os resultados constantes do documento elaborado, com um parecer que, face ao que até à data sucedeu, já esteja de antemão estabelecido…
Campos de Barros