Ao menos, coloquem uma
bolinha vermelha…
Tencionava, desta vez, tecer algumas considerações sobre diversos -dos acontecimentos mais relevantes, na minha
modesta opinião, ocorridos nas últimas décadas, como factos justificativos do
estado, quase que diria de desgraça nacional, a que Portugal foi conduzido, com
a cumplicidade, mesmo por omissão, de uma grande maioria de todos nós, mas dois
acontecimento, ocorridos muito recentemente, obrigaram-me a alterar um pouco o
rumo, que não totalmente, sob pena de violentar a minha consciência, se não
exprimindo, frontal e do fundo da alma, a repulsa, a revolta e, por que não o
dizer, o nojo que os mesmos me originaram.
E porque o significado de qualquer um deles é igualmente bem
demonstrativo do modo como os cidadãos são tratados, por quem, acima de tudo,
tem a obrigação de se comportar de um modo que justifique o princípio de que “o
exemplo deve vir de cima”, decidi começar por abordar o acontecimento
publicitado em primeiro lugar, ou seja, o regresso à televisão, agora como
comentador político, de alguém que me não coibi de qualificar, oportunamente,
como “Coveiro do Povo”, título que a realidade da herança deixada parece
justificar, pelo menos em boa escala.
Mas a verdade, é que, talvez que embalados pelo entusiasmo
da ideia genial atrás referida, onde me permito descortinar, mas até posso
estar enganado, uma mãozinha de Relvas, contribuindo generosamente para um
Seguro ainda mais inseguro- se assim foi, curvo-me perante a inteligência da
golpada- os responsáveis, e deviam na verdade merecer esta classificação, pelos
destinos deste país, serviram-se inteligentemente de uma legislação do tempo do
outro senhor- e até nisto os acontecimentos se interligam-parece que elaborada
e promulgada com fins bem definidos- e que a ética e a honestidade política
(mas onde isso já vai) obrigava a ser de imediato revogada. Mas a falta destes
princípios é uma realidade transversal a toda a classe política, e, como o caso
vertente bem demonstra, neste Portugal muitas vezes as leis são feitas e
aprovadas para que o crime compense. É claro que me estou a referir ao caso do
espião dos Serviços Secretos que traiu os princípios de atuação a que se
encontrava obrigado, servindo a entidade ou entidades a que se vendeu, na
certeza de que, para além das benesses de antemão garantidas, outras lhe
estavam reservadas, à custa do erário público, suportado pelas contribuições
dos que o autor do trabalho, que não tenho pejo em qualificar de sujo, tinha
obrigação de servir…
E a desculpa de que a responsabilidade da situação é da
legislação vigente, e só vigente porque o atual governo teve o cuidado de a
preservar, vem na senda do que passou a ser moda- tudo é explicado pelo
passado, nada sendo da responsabilidade da incompetência, e estou a ser muito
soft na linguagem, dos atuais governantes, sem haver sequer a vergonha de não
esquecer que foi precisamente o contrário que o atual primeiro- ministro
prometeu durante a campanha eleitoral…E certamente que foi também culpa do seu
antecessor, que o ex- espião em causa, cujo nome nem sequer quero pronunciar,
permaneceu, parece que durante dois anos, na” ilegalidade”, uma vez que a lei
obrigava a que, de imediato, passasse a usufruir da recompensa pelo crime
praticado. Mas, como alguém se “esqueceu” de tal pormenor, a recompensa pelos
brilhantes serviços prestados terá, segundo ouvi informar, efeitos retroativos,
como é de bom tom!
Devo confessar, que o sentimento de revolta, normal em
qualquer cidadão, tem no autor destas linhas uma intensidade muito especial,
dado que, tendo servido, como especialista, num serviço de informações
militares, e muito embora estando desde há décadas desvinculado da obrigação de
guardar segredo das informações a que teve acesso, através do Serviço que
chefiava, só muito recentemente, e depois da publicação de um livro em que lhe
é feita referência, bem com a algumas situações em que esteve, direta ou
indiretamente envolvido, e duas delas de verdadeira dimensão nacional, só
recentemente a elas se referiu…Sinal dos tempos que correm e que mais me fazem
sentir a honra de ser militar.
Por tudo o exposto, parece-me imperativo que, quando
qualquer das situações em causa seja objeto de tratamento televisivo, no canto
superior direito do ecran, seja colocada uma
bolinha vermelha, com a
indicação de que se trata de “pornografia
política”; pelo menos haverá uma tentativa de se evitar que os mais jovens
tenham conhecimento da total falta de moral e ética que preside à atividade
política em Portugal e não sejam compuscados pela natureza da matéria a ser tratada;
tenham, pelo menos, piedade pelos mais jovens, já que a mesma não merecem por
parte dos que mais obrigação tiveram e têm de assim proceder!