Que nunca, por
cobardia, conhecido seja… (cont.)
Depois de, em publicação anterior, ter tentado fazer uma
análise das várias fases, no âmbito politico, vividas pelo país, desde o golpe
militar de 25 de Abril até aos dias de hoje, pretendo fazer o registo dos
factos e acontecimentos de maior relevância, ocorridos no mesmo período e que
conduziram ao estado de verdadeira calamidade pública em que nos encontramos.
E o período que se seguiu ao golpe militar foi, sem dúvida, o
mais “rico” em acontecimentos de natureza vária, de tal modo que ainda hoje
permanecem marcas, principalmente no respeitante a personalidades que, graças
ao oportunismo politico, de então e no decorrer do tempo, permanecem na “crista
da onda”, apresentando-se, com a conivência de grande parte da comunicação
social, como democratas da primeira linha…
Mas debrucemo-nos sobre os primeiros tempos do que se
convencionou chamar de democracia, com realce para um conjunto de acções e
ocorrências, incluídas no denominado PREC, ou seja, Período Revolucionário Em
Curso; vejamos, então:
Proliferação de partidos, que chegaram a ser 34;ocupação de
jornais, fábricas e herdades; nacionalização das principais empresas; centenas
de saneamentos, incluindo as forças
armadas e estabelecimentos de ensino, com o encerrar de alguns deles; total
indisciplina no seio das forças armadas, incluindo a constituição do movimento
SUV (soldados unidos vencerão); criação das chamadas Brigadas Revolucionárias e
das Brigadas de Dinamização Cultural, que se deslocavam, as últimas, a vários
pontos do país, para tentarem a adesão
das populações rurais às doutrinas revolucionárias que defendiam; prisão de
dezenas de cidadãos sem culpa formada, com a alegação de se tratarem de
perigosos fascistas. Mais, muito mais poderia registar, mas o apresentado é o
suficiente para se avaliar do tipo de democracia que se pretendeu implantar.
Entretanto, e porque permite fazer a ligação deste período à
situação politica actual, merece destaque a constituição do MES (Movimento de
Esquerda Socialista) e a posterior saída de vários militantes, que passaram a
integrar a ala esquerda do PS de então. Por uma questão de justiça, há que
referir não ser o MES a única organização politica, revolucionária, de onde
emergiram nomes que se apresentam hoje como democratas exemplares. Na verdade,
MRPP e UDP, por exemplo, também deram a sua valiosa colaboração…
O aparecimento de dois partidos-PPD e CDS- fez atrair sobre
eles a atenção das organizações revolucionárias, por serem consideradas como
refúgio de fascistas e inimigos do povo, daí resultando ataques às suas sedes e
a alguns comícios por eles organizados. Dois casos guardei na memória: o
ocorrido num comício do PPD, realizado no então chamado Palácio de Cristal, em
que, no final do mesmo, a deslocação para o carro foi feita sob repetidos
disparos de armas de fogo e a tentativa de assalto, envolvendo também armas de
fogo, às instalações, situadas no Bonfim, onde Francisco Sá Carneiro se
encontrava reunido com alguns militantes, os quais reagiram de imediato, obrigando
à retirada dos seus autores. Por razão das funções que à data desempenhava, no
âmbito partidário, permaneci no interior das instalações, fazendo companhia a
quem tinha sido, pelas ideias que professava e pelos comportamentos assumidos,
o responsável pela minha adesão ao partido. E assim, durante largos minutos,
tive o privilégio de conversar a sós, com o Homem, Politico e Estadista que
tanto admirava. E dessa conversa, franca, aberta e frontal nunca a alguém dei
conhecimento…
Entretanto os sindicatos faziam valer a sua força, actuando
como verdadeiras associações politicas, sucedendo-se as greves e as
manifestações de rua, enquanto as comissões de trabalhadores se apoderavam do
controlo de inúmeras empresas.
Os factos aqui referidos pretendem somente compreender melhor o que foi, nos anos que se seguiram e até à actualidade, o comportamento dos partidos e dos portugueses, principalmente dos que têm constituído a classe política.
Os factos aqui referidos pretendem somente compreender melhor o que foi, nos anos que se seguiram e até à actualidade, o comportamento dos partidos e dos portugueses, principalmente dos que têm constituído a classe política.
Muito mais poderia ser referido, como o 11 de Março, a
tentativa de ocupação da Rádio Renascença, a greve do Governo, anunciada pelo
então primeiro ministro, Pinheiro de Azevedo, mas o apresentado considero ser
suficiente para de ficar com uma imagem do Portugal de então. Previa-se uma
guerra civil e, neste âmbito, há que registar o comportamento do PCP que optou
por não alinhar nessa aventura, o que enfraqueceu notoriamente as chamadas
forças revolucionárias.
Foi perante a situação vivida, que pronunciava uma possível
morte de um regime democrático e a implantação de uma ditadura suportada pelas
forças da extrema esquerda, que as forças armadas, não comprometidas com a
situação vigente, planearam e executaram uma intervenção militar, opondo-se a
uma tentativa de Golpe de Estado, em preparação pelas forças revolucionárias e
que ficou conhecido pelo Golpe de 25 de Novembro (de 75).Rio Maior ficou na
história por, na madrugada de 24, os habitantes da vila e alguns milhares de
agricultores, associados da CAP, terem erguido barricadas, impedindo a livre
circulação e controlando pessoas e viaturas. O país correu o risco de ficar
dividido em duas áreas distintas e só a
intervenção das forças armadas não
aderentes ao Golpe de Estado em preparação, impediu o que parecia inevitável: a
guerra civil.
E assim o PREC deu lugar ao PCEC: Período Constitucional Em
Curso!
Restabelecida a relativa situação de normalidade da vida do
país, foi, a 2 de Abril de 76 aprovada uma nova Constituição, em cujo preâmbulo
consta o “abrir caminho para uma sociedade socialista”, facto demonstrativo da
predominância, à data, dos ideais socialistas. A verdade é que, apesar das
diversas alterações entretanto introduzidas, esta matéria se mantém sem
alteração; ou seja, a Constituição não está isenta de qualquer carga
ideológica…
Aprovada a Constituição, ficou aberto o caminho para
sucessivas eleições, legislativas, europeias e autárquicas, sucedendo-se os
governos, praticamente sempre com os mesmos apoios parlamentares, o que levou à
existência de alternâncias de poder, mas nunca de verdadeiras alternativas.
Mas um denominador comum há a registar: a diferença entre as
promessas feitas durante as campanhas e as concretizadas…E nesta realidade
reside a causa do cada vez maior afastamento dos cidadãos da classe politica e
o descrédito também crescente dos partidos perante os eleitores. E a acentuada
perda de qualidade, de legislatura para legislatura, principalmente no que diz
respeito à honestidade, politica e intelectual dos agentes políticos, mais
afectou o prestígio e credibilidade dos que tendo podendo fazer da actividade
politica algo de nobre e dignificante- servir os cidadãos- frequentemente
destes se servem…
E a realidade da situação com que o país se debate, é a
consequência lógica de mais de 40 anos de politicas erradas, da defesa de
interesses próprios, em oposição ao interesse colectivo, do poder crescente dos
grandes interesses económicos e financeiros sobre os agentes políticos, que
controlam, de uma justiça que diferencia pobres e ricos, factores que, na sua
globalidade permitiram e mesmo geraram sucessivos e cada vez mais frequentes
casos de corrupção. E como se tudo isto já não fosse suficiente para conduzir o
país para as bordas do abismo, concretizou-se o que, há algumas dezenas de anos,
o Prof. Nandin de Carvalho , um influente maçon assumido, num livro que
publicou, previu: o controlo, por parte da maçonaria, de grande parte das
instituições nacionais…
Tenho consciência da extensão do texto, mas há situações em
que não posso opor-me ao que a consciência me dita. E principalmente estão em
causa a Cidadania e a defesa do Bem Comum.
Em breve publicitarei a parte final deste Artigo de Opinião.