Um grito de raiva e de revolta!
O recordar da leitura da entrevista dada á revista Focus , há alguns anos, por José Esteves, fabricante, segundo o próprio confessou, da bomba artesanal que serviu de base para a construção do engenho explosivo que provocou o crime – esta é a minha firme convicção -que vitimou e todos os que no avião viajavam e o aproximar da data que roubou ao país o único político com verdadeira estatura de Estadista que Portugal conheceu após o 25 de Abril, para além de um parlamentar ímpar, por sinal também Ministro da Defesa e de outras diversas personalidades , incluindo Snu Abcassis, uma mulher verdadeiramente extraordinária a quem a Cultura muito ficou a dever, obriga-me a exteriorizar tudo que me vai na alma, e que se foi acumulando ao longo dos anos. Na verdade a confissão a que me refiro, nada mais foi do que o confirmar do que há muito se suspeitava e que só os mais inconscientes e ingénuos colocavam em dúvida, aliando-se assim aos que do crime tiraram dividendos de ordem diversa tudo fizeram para camuflar: tratou-se de um crime hediondo, um verdadeiro crime de lesa-pátria, praticado por energúmenos, a mando de outros energúmenos, em grau muitíssimo superior! E só a cumplicidade criminosa de outros tantos permitiu que, durante anos e anos, o que desde o primeiro momento se apresentava como um atentado criminoso, nunca fosse oficialmente considerado como tal e que ninguém fosse sequer levado a tribunal.
E as dúvidas e mesmo negações por muitos afirmadas ao longo dos anos, só me levarão a mudar de opinião se muitas e muitas questões forem devidamente esclarecidas.
Vejamos, então:
-Testemunhas que afirmaram terem visto o avião a incendiar-se ainda durante o voo e nenhum cuidado em garantir o mais possível a interdição de acesso à área onde se localizavam os destroços e a guarda do que restou do avião, durante anos, num local de fácil acesso;
-Localização de fragmentos metálicos nos pés de um dos tripulantes e detecção de sinais de explosivos;
-Nenhuma actuação em relação a Lee Rodrigues, permanentemente citado como altamente suspeito e não actuação relativamente a informações fornecidas por serviços secretos estrangeiros;
-Conclusões opostas por parte das diversas comissões parlamentares de inquérito;
-Falta de uma investigação, isenta, profunda e competente, relativamente aos dinheiros do Fundo de Defesa Militar do Ultramar, envolvendo enorme quantia; convém não esquecer que uma das vítimas era o então Ministro da Defesa, que certamente muito saberia sobre esta matéria;
-O que foi feito, a nível de investigação, relativamente a uma tantas vezes publicitada rede clandestina de fornecimento de armas para Angola?
-Como explicar o comportamento, durante todo o processo, do então PGR , oportunamente “transferido” para um aliciante cargo, fora do país?
E muitas mais e pertinentes questões que foram, ao longo dos anos frequentemente referidas e sempre sem qualquer resposta minimamente aceitável.
E para que não fiquem quaisquer dúvidas sobre a intenção do que exponho, duas situações tenho que referir; o atentado – assim continuo a considerar o sucedido – não se destinava especificadamente a Sá Carneiro e de modo algum foi, como de modo mais ou menos aberto algumas forças políticas quiseram fazer crer, da responsabilidade da esquerda ou extrema esquerda; pelo menos é, e sempre foi, a minha profunda convicção. É que o objecto de qualquer acção criminosa e a identificação dos que a quem ela aproveita, são princípios básicos de qualquer investigação, que deseje encontrar a verdade, que não escondê-la…
E por último uma pergunta: o que se pode esperar de um país em que, passado dezenas de anos, permanecem sem qualquer explicação todas as dúvidas, para muitos, que não para mim, que rodeiam o que, talvez que para afastar “maus pensamentos”quase sempre é referido como”o acidente de Camarate”? Morre um primeiro-ministro, morre um Ministro da Defesa, morrem mais pessoas e não se gera um movimento popular que obrigue as autoridades, todas as autoridades deste país, a tudo fazerem para que tudo fosse esclarecido? Um povo que assim age, muitas vezes cobardemente sereno, justifica em absoluto que ao longo da sua história moderna os crimes de natureza política ou com esta interligados, com destaque para a corrupção, fiquem por norma sem punição. Quando deixaremos de pertencer, na prática, a um terceiro mundo, mesmo no qual nem sempre é este o desfecho?
E ainda sobre o âmago deste texto:
É convicção minha que enquanto algumas personalidades forem vivas, não será possível conhecer toda a verdade sobre Camarate. Se tal assim não suceder, tal prova que, apesar de ler os jornais, tenho dúvidas e também nem sempre tenho razão…
Por tudo o exposto, o meu grito de Raiva e de Revolta! Mesmo que ninguém ouvir o queira…