40 anos de Luz e Sombras
Passados 40 anos do golpe militar do 25 de Abril, a que
muitos ainda teimam em qualificar de Revolução, não resisto a dar conta da
análise que sobre esse período faço. É lógico que se trata de uma mera opinião
pessoal, e muito genérica, mas o facto de ter vivido o período em causa em
ligação, por vezes muito próxima, e em alguns casos mesmo com ligação directa,
com acontecimentos verdadeiramente relevantes para a vida nacional, me permite
dar a minha visão sobre os mesmos com um mínimo de conhecimento de causa.
E não é por acaso que a Luz é a primeira situação a ser
referida no título desta peça, pois o facto de ser possível a mesma ser escrita
e divulgada publicamente é a prova do muito de positivo que o golpe militar
ofereceu ao país…É que a liberdade de expressão constitui uma das pedras
angulares de qualquer Democracia, muito embora só por si não garanta que a
mesma exista em toda a sua plenitude, como aliás a realidade que se vive em
Portugal comprova.
Na verdade, os inegáveis progressos feitos ao nível do
ensino, da saúde pública e na habitação, e aqui referidos como meros exemplos
do muito de positivo que Abril gerou, não permitem esquecer os verdadeiros
pontos negros que constituíram uma descolonização de que de modo algum nos
podemos orgulhar, a verdadeira loucura das nacionalizações sem qualquer
critério, as ocupações verdadeiramente selvagens, as prisões desenfreadas sem
um mínimo de suporte legal, a indisciplina que se instalou nas forças armadas.
É verdade que muitos dos desvarios foram sendo corrigidos,
mas quanto não custou ao país os erros cometidos?
E quer dizer de politicas que levaram ao abandono das terras
e do mar, do desbaratar dos fundos
comunitários, desviados dos objectivos a que se destinavam e utilizados para
fins meramente pessoais?
E se a constituição de partidos e a liberdade para a
constituição de sindicatos, bem como o direito à greve, só foram possíveis com
a liberdade que Abril conquistou, pergunta-se se os partidos, tal como existem
e funcionam, servem o povo, se os sindicatos não se constituíram fundamentalmente em instrumentos ao serviço de
forças políticas e se as greves servem, em muitos casos, os verdadeiros
interesses dos trabalhadores?
E que dizer no respeitante à justiça, à lentidão com que se
move e a situações que nos permitem admitir a existência de uma justiça para os
fracos e pobres, em contrapartida com a que actua em relação aos fortes e
ricos? E como qualificar a situação envolvendo as tremendas injustiças sociais
que afectam centenas de milhares de cidadãos, com o avolumar do fosso que
separa uma classe auferindo de todas as benesses de uma outra vivendo no limiar
da pobreza ou mesmo em pobreza extrema, a par do desaparecimento de uma classe
média que sempre foi a base do desenvolvimento do país?
Será que o regime vigente oferece garantias de concretização
de muitos dos sonhos que Abril gerou e
como meros sonhos ainda permanecem ? Será que o governo do povo, para o povo e
pelo povo, pode ser viabilizado pelo sistema que rege as eleições em Portugal,
que permite a existência de candidatos com a eleição antecipadamente garantida,
em função dos lugares que ocupam nas listas?
A resposta é um absoluto não e o afastamento, cada vez mais
notório e profundo, dos cidadãos em relação aos políticos e todas as
organizações que os integram, é a prova mais concludente do afirmado.
Urge refundir o regime, restaurar a confiança na classe
política e nas instituições a quem compete gerir os destinos do país,
substituindo uma partidocracia, que sustenta uma democracia pouco mais do que
formal e real, por uma verdadeira democracia. E para tal é fundamental que os eleitores
se revejam nos eleitos, o que só um sistema eleitoral em que o voto nominal
prevaleça pode permitir.
CIDADANIA em pleno, de modo a permitir o BEM COMUM, é uma
exigência dos tempos que se vivem em Portugal. Mas parece que, por muitos, esta
exigência ainda não foi entendida…
Certamente que nunca a perfeição será obtida, mas pelo menos que
continue a ser possível afirmar-se ser a democracia o menos mau de todos os
sistemas políticos…Do que muitos, lamentavelmente, começam a duvidar!
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