quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Digam-me que é um pesadelo, por favor…
Vivi, com ansiedade mas convicto do êxito, o período que antecedeu o golpe militar de 25 Abril, chorei de alegria no dia em que o meu sonho se concretizou, senti no mais íntimo do meu coração e da minha consciência tudo o que envolveu o que ficou conhecido como PREC, muito embora a surpresa não fosse total, dado o conhecimento que tinha de várias personalidades que se manifestariam peças fulcrais nas diversas áreas do poder e a quase total ignorância de natureza política da grande maioria dos oficiais do Quadro Permanente intervenientes no referido golpe militar, a que se acrescentou a errada noção de que a missão estava cumprida, impondo-se o recolher aos quarteis e o desejo de demonstração de um desapego ao poder, habilmente aproveitado por oportunistas que viram neste procedimento uma ocasião única de conquista de posições que nunca conseguiriam alcançar por mérito próprio, alguns dos quais ainda hoje continuam de tal a colher dividendos.
Senti, como o sentiram os verdadeiros democratas e, portanto, amantes da paz e da liberdade, a angústia de uma potencial guerra civil, com o risco da implantação de uma nova ditadura, de sinal contrário à que o golpe militar derrubara, tendo acompanhado e vivido muito de perto o 25 de Novembro de 75.
 Garantido o regime democrático, senti profundamente a emoção das lutas partidárias e tive a ocasião e mesmo a honra de conhecer figuras políticas de grande gabarito e de admirar a capacidade, intelectual e política de várias personalidades defensoras de doutrinas com os quais não estava de acordo, mas que respeitava, observei crises políticas, económicas e financeiras que obrigaram a profundos sacrifícios dos cidadãos, consequência da incapacidade, a vários níveis e dos desmandos daqueles a quem o povo entregara a governação, a maior parte das vezes, se não sempre, confiante de que as promessas eleitorais seriam cumpridas, o que por norma não passaria de uma mera miragem.
Mas o que tenho assistido nos últimos anos e muito em especial mais recentemente, pela extrema gravidade de que se reveste, no âmbito de desonestidade intelectual e política, de total ausência de ética, de desprezo completo pela lei, de mistura da justiça com a política e vice-versa, de comportamentos que levam os cidadãos a interrogarem-se sobre o tipo de garantia que as forças de segurança, militares ou militarizadas lhes oferecem, do total esquecimento a que são por norma votados compromissos internos e internacionais assumidos por diversas forças partidárias, a quase total desconfiança com que são olhados os principais agentes políticos, quer individuais, quer colectivos, ultrapassa largamente o que imaginar poderia!
Incitações à violência para derrube do poder democrático, concorde-se ou não- e eu de modo algum concordo com o actual, como nunca concordei com os mais recentes-  forças de segurança envolvidas em situações , por acção ou omissão, que não tenho o menor pejo em condenar veementemente, reuniões tendo como figura central- refiro concretamente Mário Soares- quem não tem a menor razão, incluindo moral e Ética, para se pronunciar sobre qualquer área da política nacional( e quem tiver dúvidas que estude e analise o seu percurso político e não só), o "ramalhete” de figuras que o emolduraram, muitas das quais apenas têm como referência o muito que as suas intervenções nos diversos cargos prejudicaram o país- mesmo que os aventais tenham sido comprados a custas próprias- construíram um cenário verdadeiramente aterrador, tendo como referência o futuro do país…
E que dizer da qualidade de certas personagens que “abrilhantaram” a cerimónia de lançamento de uma publicação do agora parisiense “Coveiro do Povo”, cerimónia que só me surpreendeu pelo facto de, como lembrança de certas presenças, não ter sido oferecida uma célebre “tesoura”, utilizada para tentar destruir gravações que, a serem tão irrelevantes como foi afirmado, a sua publicitação só favoreceria a imagem do ilustre escritor?
E que do mesmo modo dizer do acto verdadeiramente heróico dos que, “democraticamente”, e talvez para fazer recordar as tristemente célebres “ocupações selvagens”, invadiram as instalações de 4 ministérios, com acções possivelmente treinadas na Coreia do Norte?
Triste sina a deste país, em que, principalmente nas situações de verdadeira calamidade nacional, como considero a actual- e não me refiro apenas ao âmbito político- não emerge um verdadeiro “Estadista”, por mais propícias que as condições se apresentem; sim, porque são estas situações que constituem um verdadeiro teste à capacidade de afirmação de qualquer político…
E as personalidades que tiveram a oportunidade de, no passado recente e no presente, de como tal se comportarem, revelaram-se, muito embora com comportamentos e natureza de intervenções bastante diferenciados, principalmente no âmbito não político- como que o inverso do que o país tanto necessitava e continua a esperar!
E nunca tão oportuno foi, face ao exposto, até para despertar consciências, a criação do prémio “CIDADANIA”, tendo como principal responsável uma prestigiada figura de uma Organização Cívica de que me orgulho de pertencer; e, muito embora nem sempre tendo estado de acordo com a sua actuação política, não posso impedir que à memória venha um nome que foi e é uma referência do oposto de praticamente tudo o que aqui registo como negativo: o General Ramalho Eanes! A César, o que é de César…
Alguns outros como ele tivesse havido e o título deste “Artigo de Opinião” não teria razão de ser…

Campos de Barros

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